PUBLICIDADE

OPINIÃO: Quem cuida de quem nos protege? Quando a saúde mental se torna uma emergência na segurança pública

IMG-20260531-WA0275

OPINIÃO– Durante muitos anos, o sonho de inúmeras crianças era vestir uma farda e se tornar policial. A profissão sempre foi associada à coragem, respeito e ao compromisso de proteger a sociedade. No entanto, nos últimos tempos, o que temos visto é um preocupante aumento dos casos de adoecimento mental entre esses profissionais, além de episódios extremos que acendem um alerta para toda a sociedade.

 

Basta analisar o que aconteceu nesta madrugada (31), em Araci : Policial civil e mulher morrem após disparos de arma de fogo em Araci

 

Afinal, o que está acontecendo?

 

É impossível ignorar que a saúde mental, não apenas dos policiais, mas da população em geral, tem dado sinais claros de esgotamento.

 

Porém, quando o assunto envolve os profissionais da segurança pública, a preocupação se torna ainda maior. São homens e mulheres que convivem diariamente com situações de risco, violência, pressão e responsabilidade. Muitas vezes, quem está na linha de frente protegendo a população acaba ficando sem a proteção necessária para cuidar da própria mente.

 

 

Ao ouvir relatos de diversas fontes, percebe-se que muitos profissionais não adoecem apenas por causa da violência enfrentada nas ruas. Em alguns casos, o sofrimento começa dentro do próprio ambiente de trabalho, marcado por pressões psicológicas, disputas internas, falta de apoio e até situações de assédio moral. Há quem relate perseguições, excesso de cobranças e a sensação constante de precisar provar seu valor.

 

Fui informada, inclusive de que a própria Polícia Militar dispõe do SEPAV (Serviço de Psicologia e Assistência à Saúde), um  programa voltado ao acolhimento e acompanhamento psicológico dos policiais militares e seus familiares. O serviço oferece apoio emocional, orientação e ações de prevenção voltadas à saúde mental da tropa. No entanto, diante do crescente número de casos de adoecimento psicológico e suicídios registrados entre profissionais da segurança pública, surge um questionamento importante: o SEPAV, sozinho, é suficiente para atender toda essa demanda? Acredite! Muitos PMs nem sabiam da existência do serviço.

Buscando compreender melhor essa realidade, conversei com a psicóloga Jessyca Oliveira dos Santos, do Núcleo de Acolhimento Psicológico da FARESI, em Conceição do Coité.

 

Psicóloga Jessyca Oliveira 

Segundo ela, os episódios registrados recentemente na região refletem uma realidade preocupante que vem sendo observada em todo o país

Os números são alarmantes no contexto geral e não somente na segurança pública. De acordo com dados, o Brasil registra cerca de 42 suicídios por dia, ultrapassando 15 mil mortes por ano. Enquanto alguns países apresentam redução nos índices, o cenário brasileiro segue na direção oposta, com crescimento dos casos, especialmente entre os jovens.

 

 

“Cada perda não é um caso isolado, mas um sintoma trágico de uma crise silenciosa que não tem recebido a atenção necessária. O suicídio na segurança pública é o desfecho mais extremo de um sofrimento acumulado e exige uma intervenção institucional imediata”, destacou a psicóloga á jornalista Rafaela Rodrigues.

PUBLICIDADE

De acordo com a especialista, os fatores que afetam a saúde mental dos profissionais da segurança podem ser divididos em duas categorias. A primeira está relacionada às atividades operacionais, como o contato constante com a violência, o risco de morte e a necessidade de permanecer em estado permanente de alerta. A segunda envolve questões organizacionais, incluindo jornadas exaustivas, pressão por resultados, falta de reconhecimento e suporte institucional insuficiente.

 

 

Os impactos não ficam restritos ao ambiente de trabalho. Eles se estendem para dentro de casa, atingindo relacionamentos familiares e a convivência social.

 

 

“O policial não consegue simplesmente desligar o modo de combate ao chegar em casa. A hipervigilância pode gerar irritabilidade, isolamento e dificuldades nos relacionamentos. Com o tempo, o estresse crônico favorece o surgimento de ansiedade, depressão, distúrbios do sono e até o uso abusivo de álcool”, explicou.

 

 

Entre os principais sinais de alerta estão mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, alterações de humor, queda no rendimento profissional, aumento da impulsividade e falas recorrentes marcadas por desesperança.

 

 

Para Jessyca Oliveira, a prevenção precisa deixar de ser uma ação pontual e passar a ser uma política permanente dentro das instituições de segurança pública.

 

Entre as medidas necessárias estão a ampliação dos programas de conscientização sobre saúde mental, a oferta de atendimento psicológico com garantia de sigilo e a melhoria das condições de trabalho.

 

 

A psicóloga também chama atenção para um obstáculo que ainda persiste: o preconceito em relação à busca por ajuda.

 

 

“A cultura do herói infalível ainda é muito forte. Muitos acreditam que demonstrar sofrimento é sinal de fraqueza, quando, na verdade, reconhecer os próprios limites é um ato de coragem”, afirmou.

Por fim, ela reforçou a importância do acompanhamento psicológico contínuo como ferramenta de prevenção e cuidado.

“Assim como o policial cuida do condicionamento físico e dos equipamentos de trabalho, também precisa cuidar da saúde mental. Buscar ajuda psicológica não é sinal de vulnerabilidade, mas uma estratégia de proteção para si mesmo e para as pessoas que ama. Sua vida vale muito mais do que qualquer farda”, concluiu.

 

 

Diante de tudo isso, fica uma reflexão: se o poder público investe em armamentos, viaturas, treinamentos e tecnologia para fortalecer a segurança, também precisa investir com a mesma seriedade na saúde mental daqueles que carregam a missão de proteger vidas. Afinal, não existe segurança pública forte quando os próprios agentes estão emocionalmente fragilizados.

 

 

Cuidar da saúde mental dos profissionais da segurança não é um favor, nem um privilégio.

 

É uma necessidade urgente, uma questão de humanidade e uma responsabilidade que deve ser compartilhada por toda a sociedade.

Não podemos continuar assistindo, em silêncio, homens e mulheres que juraram proteger vidas perderem a própria batalha contra o sofrimento emocional. É doloroso constatar que, em muitos casos, o instrumento que deveria servir para defender a sociedade acaba sendo utilizado contra quem o carrega diariamente.

 

Quando um policial chega ao ponto de usar a própria arma para tirar a própria vida, não estamos diante de uma tragédia individual, mas de um alerta coletivo de que algo falhou no caminho. Esses profissionais são pais, mães, filhos, amigos e seres humanos que também sentem medo, dor e cansaço. Precisamos olhar para eles além da farda. Valorizar a saúde mental de quem nos protege é preservar vidas. Não podemos permitir que nossos guerreiros morram pelas próprias armas enquanto clamam, muitas vezes em silêncio, por ajuda.

 

Por Rafaela Rodrigues

Jornalista e radialista

Foto: Ilustração

Outras Notícias

Mulher fica ferida após cair de moto ao passar por “levada” na zona rural de Conceição do Coité

Confira a mensagem do deputado Alex da Piatã para 2025

Com infraestrutura moderna e ensino de qualidade, Colégio Lápis na Mão implementará aulas de educação socioemocional em 2025; saiba como se matricular!

Mulher é amparada pela PM após denunciar agressões e ameaças do companheiro no bairro Jaqueira em Conceição do Coité

Van envolvida em acidente com 15 mortos na BR 116 pertencia a moradora de Conceição do Coité; ela entra em choque ao saber da tragédia

OPINIÃO: Quem cuida de quem nos protege? Quando a saúde mental se torna uma emergência na segurança pública

×