Se dependesse dos estereótipos e da aparência, ela poderia facilmente ter seguido a carreira de modelo. Dona de uma beleza que chama atenção por onde passa, Cíntia Queiroz também poderia ter escolhido uma profissão que muitos ainda insistem em classificar como “coisa de mulher”.
A jovem de 27 anos decidiu trilhar um caminho completamente diferente. Natural de Tapiramutá, na região da Chapada Diamantina, ela transformou a paixão por carros em profissão e hoje atua como mecânica em uma concessionária de uma montadora de renome internacional, em Feira de Santana.
Em um ambiente historicamente dominado por homens, Cíntia construiu sua trajetória enfrentando preconceitos, dúvidas e até a descrença de pessoas próximas. Mas foi justamente a persistência diante dos desafios que a levou a ocupar um espaço que, durante muito tempo, parecia improvável para uma mulher do interior da Bahia.
A paixão pela mecânica surgiu ainda na infância. Influenciada pelo amigo Jonathas, com quem cresceu, ela passou a se interessar por carros antigos e pelo universo automotivo.
O que começou como uma curiosidade se transformou em um sonho que a acompanhou durante toda a adolescência.

Durante um bate-papo com a jornalista Rafaela Rodrigues, a mecânica contou que, mesmo sem referências femininas na área e vivendo em uma cidade onde era difícil imaginar uma mulher trabalhando em uma oficina, decidiu apostar no que realmente gostava.
Mudou-se para Feira de Santana para cursar Técnico em Mecânica no Centro Estadual de Educação Profissional (CEEP). Embora a formação fosse mais voltada para a mecânica industrial, encontrou professores que incentivaram sua paixão pela mecânica automotiva e a ajudaram a acreditar que aquele sonho poderia se tornar realidade.
Ainda conforme seus relatos, a caminhada não foi fácil. Após concluir o curso, enfrentou dificuldades para ingressar no mercado de trabalho. Em diversos momentos ouviu questionamentos sobre sua capacidade, recebeu olhares de desconfiança e precisou provar, repetidas vezes, que tinha competência para exercer a profissão.
O preconceito também apareceu de formas sutis e explícitas. Em uma das situações que mais marcaram sua trajetória, Cíntia foi a uma loja de autopeças para comprar um item necessário para realizar um serviço.
Durante o atendimento, o vendedor perguntou:
Quem é o mecânico que vai fazer o serviço no seu carro?
A resposta veio de forma simples e direta:
Sou eu.
Surpreso, o atendente não escondeu o espanto ao descobrir que a própria cliente era a profissional responsável pelo reparo.
Episódios como esse se repetiram ao longo de sua trajetória e serviram como combustível para continuar mostrando que competência não tem gênero.
Mas nenhuma dessas situações foi suficiente para fazê-la desistir.
Ao longo da caminhada, Cíntia contou com o apoio de pessoas que tiveram papel fundamental em sua história. O interesse pelos carros nasceu ainda na infância através da amizade com Jonathas, que despertou nela a curiosidade pelo universo automotivo. Dentro de casa, também encontrou incentivo no pai, Luiz, que sempre acompanhou sua trajetória e apoiou suas escolhas.
Já a oportunidade que mudaria os rumos de sua carreira surgiu através de Daniel, amigo que acreditou em seu potencial e foi responsável por abrir as portas para sua entrada em uma concessionária. Foi a partir dessa chance que Cíntia iniciou sua trajetória profissional no setor automotivo.
Primeiro, atuou como auxiliar, absorvendo conhecimento e ganhando experiência prática no dia a dia da oficina. Com dedicação, disciplina e muita determinação, conquistou seu espaço na área técnica, função que exerce atualmente com orgulho e reconhecimento.
Hoje, além do respeito dos colegas de trabalho, ela também recebe a confiança de clientes que fazem questão de que seus veículos sejam atendidos por ela.
Mais do que construir uma carreira, Cíntia transformou sua história em uma ferramenta de inspiração. Por meio das redes sociais, onde mantém o perfil no Instagram “Carro e Mulher“, ela compartilha dicas automotivas, orientações para motoristas e conteúdos voltados especialmente ao público feminino, buscando ajudar outras mulheres a entenderem mais sobre seus veículos e evitarem situações de desinformação.

O grande sonho da mecânica é abrir a própria oficina, criando um espaço acolhedor para todos os clientes, mas especialmente para mulheres que muitas vezes se sentem inseguras ao buscar serviços automotivos.
Para ela, a maior conquista não está apenas nos carros consertados ou nos conhecimentos adquiridos ao longo da carreira, mas na possibilidade de mostrar que sonhos não têm gênero.
A história de Cíntia Queiroz é um exemplo de coragem, perseverança e autenticidade. Em um mundo que ainda tenta impor limites baseados em estereótipos, ela escolheu seguir sua paixão e vem mostrando, todos os dias, que o lugar de uma mulher é exatamente onde ela deseja estar.
Por Rafaela Rodrigues.
Foto: Arquivo pessoal




























