Tinha tudo para dar errado. Diversas vezes, o fim de sua história parecia decretado.
Natural de Conceição do Coité, morador do Bairro da Quadra e hoje com 31 anos, Ronaldo Oliveira, vulgo “Ronaldo da Quadra” teve a juventude marcada pela criminalidade. Ele responde a dez processos por assaltos à mão armada, nove em Conceição do Coité e um em Riachão do Jacuípe, além de outros delitos que nunca chegaram ao conhecimento das autoridades.

Durante anos, seu nome esteve entre os mais conhecidos do setor policial na região sisaleira. A fama de assaltante perigoso fazia com que muitos acreditassem que seu destino seria inevitável.
A frase era recorrente:
“Ronaldo ou estaria preso ou já teria morrido, diante de uma trajetória marcada pelo crime e por escolhas ilícitas que, inevitavelmente, culminariam em consequências destrutivas, como a prisão ou a morte.”
Mas a história tomou um rumo completamente diferente.
Intrigada com o desaparecimento de Ronaldo do noticiário policial, a jornalista Rafaela Rodrigues, que acompanha diariamente as ocorrências da região, decidiu descobrir o que havia acontecido com aquele homem que, por tantos anos, foi apontado como um dos criminosos mais temidos da região.

E ele topou conceder uma entrevista exclusiva! Durante a conversa, Ronaldo revelou que o crime lhe cobrou um preço alto. Além de responder pelos processos, afirma ter sobrevivido a cerca de dez tentativas de homicídio. Atualmente, ainda cumpre parte da pena utilizando tornozeleira eletrônica.
O assalto que mudou sua vida
Segundo Ronaldo, o episódio que transformou sua história aconteceu durante um assalto a uma mulher evangélica.

No momento do crime, ele conta que foi tomado por um sentimento diferente.
Em vez de concluir o roubo, devolveu todos os pertences da vítima e fez apenas um pedido:
“Ore por mim.”
Segundo ele, depois daquele dia nunca mais conseguiu ser o mesmo.
“Ela pegou tudo de volta. Depois daquele dia eu nunca mais consegui ser o mesmo ladrão.”
O acolhimento na igreja
Após esse episódio, Ronaldo começou a frequentar a igreja Petencostal Sala do Trono, onde encontrou acolhimento através do pastor Clécio, que também possui um testemunho de transformação.

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Segundo o pastor, antes de sua conversão, viveu um período marcado pela prostituição quando era travesti, pelo uso de drogas e por outras situações difíceis. Após conhecer a fé cristã, passou a dedicar sua vida ao acolhimento de pessoas que desejam recomeçar.
Foi justamente esse acolhimento que, de acordo com Ronaldo, fez toda a diferença em sua caminhada.
A tentativa de homicídio dentro da igreja
Um dos episódios mais marcantes aconteceu quando Ronaldo ainda estava iniciando sua vida na igreja.
Segundo ele, ao término de um culto, um homem armado entrou no templo decidido a matá-lo.
Ao perceber a situação, o pastor Clécio colocou-se à frente de Ronaldo e, conforme os relatos, pediu em nome de Jesus que o criminoso não cometesse aquele ato.
A história foi confirmada pelo próprio pastor durante entrevista à jornalista Rafaela Rodrigues.
Segundo ambos, o homem abaixou a arma, desistiu da execução e deixou o local.
“Ali foi Deus. Não tem explicação. O pastor gritou em nome de Jesus e falou sobre o propósito que Deus tinha para minha vida”, relembra Ronaldo.
Livramentos
Ronaldo afirma ainda ter sobrevivido a outras tentativas de homicídio.
Em uma delas, homens efetuaram diversos disparos contra o carro e a motocicleta em que ele estava. Segundo seu relato, nenhum dos tiros o atingiu.
Em outra ocasião, afirma que a arma utilizada pelo criminoso falhou no momento em que seria executado.
Já em outro ataque, quem acabou sofrendo as consequências de sua vida no crime foi sua própria irmã.
Durante uma tentativa de homicídio contra Ronaldo, ela foi baleada e até hoje convive com um projétil alojado no corpo.
Para ele, todos esses episódios representam livramentos concedidos por Deus.
A reconstrução
Depois de aproximadamente duas décadas envolvido com a criminalidade, Ronaldo afirma estar há seis anos longe do crime.

Mesmo transformando sua vida, precisou responder judicialmente pelos atos praticados no passado e foi condenado a oito anos de prisão.
Atualmente, cumpre a pena utilizando tornozeleira eletrônica e, após autorização da Justiça, voltou ao mercado de trabalho como cobrador de um plano de assistência familiar.
Nesse processo de reconstrução, Ronaldo destaca a importância de sua advogada, Dra. Rosiany Lima. Segundo ele, mesmo diante do histórico criminal e das dificuldades do processo, ela nunca desistiu de acreditar em sua recuperação.
Foi a advogada quem intermediou a oportunidade para que ele voltasse ao mercado de trabalho, conseguindo o emprego que exerce atualmente.
Para Ronaldo, esse voto de confiança foi decisivo para que pudesse reconstruir sua vida por meio do trabalho digno e mostrar à sociedade que estava disposto a seguir um novo caminho.
Hoje, ele constituiu uma família, é pai de dois filhos e permanece firme na igreja.
“Tenho caráter, família, filhos e aprendi o valor do trabalho. Vivo para Cristo.”
As lágrimas durante a entrevista
Um dos momentos mais emocionantes da entrevista aconteceu quando Ronaldo foi questionado sobre a possibilidade de, futuramente, deixar de utilizar a tornozeleira eletrônica, caso continue cumprindo todas as determinações da Justiça.

Ao falar sobre esse sonho, ele não conseguiu conter as lágrimas.

Emocionado, afirmou que esse é um dos maiores desejos de sua vida.
“É o que mais desejo. Tenho convicção de que estou fazendo tudo certo e que Deus vai completar a obra que começou na minha vida.”
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Um conselho aos jovens
Questionado pela jornalista Rafaela Rodrigues sobre o que diria aos jovens que ainda vivem na criminalidade, Ronaldo foi enfático:

“Saiam desse mundo enquanto é tempo. O crime não tem nada de bom. Eu fui escravo dessa vida, mas Jesus me libertou. Se Ele mudou a minha história, também pode mudar a de qualquer pessoa.”
O olhar da Justiça
Ao tomar conhecimento da transformação vivida por Ronaldo desde o início do cumprimento da pena, o juiz de Direito Gerivaldo Neiva, responsável pela sentença, destacou que o caso demonstra a importância da ressocialização.
Segundo o magistrado, a trajetória de Ronaldo comprova que pessoas podem reconstruir suas vidas quando recebem acolhimento e oportunidades reais de mudança.
Gerivaldo Neiva também ressaltou a eficácia da tornozeleira eletrônica como instrumento de fiscalização e reintegração social.
Segundo o juiz, o equipamento impõe limites à liberdade do monitorado, contribui para o cumprimento das determinações judiciais e demonstra que a ressocialização é possível quando existe responsabilidade, acompanhamento e oportunidade.
Por fim, a história de Ronaldo Oliveira não apaga os crimes cometidos no passado nem elimina as consequências impostas pela Justiça.
Ela mostra, porém, que a ressocialização depende de diferentes fatores: do cumprimento da pena, da fiscalização da Justiça, do acolhimento da igreja, da confiança de profissionais que acreditam na recuperação, como sua advogada, Dra. Rosiany da oportunidade de trabalho e, principalmente, da decisão pessoal de mudar de vida.
Por Rafaela Rodrigues
Fotos: Arquivo Pessoal


