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Reviravolta: “Não vou aceitar seus caprichos”, teria dito médica a pai de criança autista com dificuldade para aceitar procedimentos invasivos em Conceição do Coité

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Após uma médica acionar a Polícia Militar contra o pai de uma criança durante um atendimento na Unidade Materno Infantil (UMI) de Conceição do Coité, o Portal Raízes manteve espaço aberto para manifestação da outra parte envolvida. Na manhã desta quinta-feira (18), a família da criança encaminhou à reportagem uma carta apresentando sua versão dos fatos.

 

Veja também: Médica sofre ameaças e ofensas de pai de criança durante atendimento na UMI em Conceição do Coité

Segundo o relato enviado à jornalista Rafaela Rodrigues, o menino é diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e possui dificuldades em lidar com procedimentos invasivos, especialmente aqueles que envolvem acesso venoso. A família afirma que, após a avaliação médica, foi indicada a administração de medicação e soro por via intravenosa, momento em que o pai solicitou que fossem avaliadas alternativas compatíveis com as necessidades da criança.

Ainda conforme a versão da família em carta enviada a jornalista Rafaela Rodrigues,  a médica teria afirmado que não mudaria o protocolo adotado e que não atenderia aos “caprichos” do pai, mesmo após ser informada sobre a condição da criança e as dificuldades relacionadas ao autismo.

A família relata que a situação gerou ansiedade e preocupação tanto para o menino quanto para o pai, que convive diariamente com as necessidades e particularidades de uma criança atípica. Segundo o documento, a equipe de enfermagem teria conseguido dialogar com o responsável e contribuir para reduzir a tensão durante o atendimento.

Ainda de acordo com a carta, em determinado momento o pai comentou com a médica que ela deveria ter mais atenção quanto ao uso de adornos, como anéis e pulseiras, dentro do ambiente hospitalar. Conforme a família, a observação teria sido recebida de forma negativa pela profissional, que passou a demonstrar irritação.

O relato também aponta que, posteriormente, houve novo desentendimento entre as partes. A família afirma que a médica teria insistido que o protocolo indicado era o único possível e que o pai deveria aceitar a conduta médica. Em seguida, segundo a carta, o responsável reforçou que a criança era autista e que suas necessidades específicas precisavam ser consideradas durante o atendimento.
A família ainda sustenta que a criança apresentou melhora após receber a medicação, não apresentando mais vômitos ou sinais de mal-estar. Diante da evolução do quadro e do desgaste emocional provocado pela situação, os familiares decidiram deixar a unidade de saúde e retornar para casa.

Segundo o documento, ao saírem da maternidade, os familiares perceberam a chegada de uma viatura da Polícia Militar à unidade. A família afirma ter interpretado o acionamento da polícia como consequência do conflito ocorrido durante o atendimento.
Na carta, os familiares defendem que a assistência médica deve ser pautada pelo diálogo, empatia e respeito às particularidades de cada paciente, especialmente quando se trata de crianças com necessidades específicas. Também pedem que os fatos sejam devidamente apurados.

A versão apresentada pela família diverge da ocorrência policial registrada anteriormente, na qual a médica relatou ter sido vítima de ameaças e ofensas durante o atendimento.

 

 

Até o momento da publicação desta reportagem, a Prefeitura de Conceição do Coité e a Secretaria Municipal de Saúde não haviam se pronunciado sobre o conteúdo da carta encaminhada pela família. O Portal Raízes reforça que o espaço permanece aberto para manifestações da gestão municipal, da direção da unidade de saúde e de todos os envolvidos no caso, em respeito ao princípio do contraditório e da ampla informação..

 

Confira abaixo a carta enviada pela família na íntegra:

Carta resposta à matéria publicada no portal raízes com o título ” Médica sofre ameaças e ofensas de pai de criança durante atendimento na UMI em Conceição do Coité”.

 

Na noite de ontem, 17/06/2026, meu filho deu entrada no Hospital Maternidade de Conceição do Coité apresentando um quadro intenso de vômitos, sem conseguir interromper os episódios. O pai da criança foi o responsável por levá-lo à unidade de saúde em busca de atendimento médico.

 

Ao chegar à maternidade, foram apresentados os documentos da criança, incluindo a carteira de identidade e a CIPTEA (Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista). A criança passou pela triagem e, posteriormente, foi atendida pela médica.

 

Após a avaliação, a médica indicou a administração de medicação intravenosa e soro por via endovenosa. Nesse momento, o pai informou que a criança é autista e possui grande dificuldade em aceitar procedimentos invasivos, especialmente o acesso venoso. Diante dessa condição, solicitou que fosse avaliada a possibilidade de administração da medicação e da hidratação por outra via, considerando as limitações e necessidades específicas da criança.

 

Segundo o relato da família, a médica recusou-se a considerar qualquer alternativa, afirmando que não mudaria o protocolo estabelecido e que não atenderia aos “caprichos” do pai. Mesmo após ser novamente informada sobre a condição da criança e as dificuldades relacionadas ao autismo, a profissional manteve sua posição, gerando crescente ansiedade e preocupação tanto para a criança quanto para seu responsável.

 

A equipe de enfermagem, por sua vez, acolheu o pai da criança, dialogou com ele e contribuiu para reduzir a tensão do momento, conseguindo administrar a medicação necessária. Durante esse período, entretanto, a médica permaneceu circulando constantemente em frente à sala de medicação, observando a situação de forma que foi percebida pela família como intimidatória e constrangedora.

 

Em determinado momento, o pai dirigiu-se à médica e comentou que ela deveria ter mais atenção quanto ao uso de adornos, como anéis e pulseiras, dentro do ambiente hospitalar. A observação foi recebida de forma negativa pela profissional, que passou a demonstrar maior irritação.

 

Segundo o relato, a médica continuou circulando em frente à sala de medicação, pressionando tanto o pai quanto a própria equipe de enfermagem com sua presença constante. Em dado momento, parou diante do pai e afirmou: “Está vendo que o protocolo é esse? Que eu não iria aceitar os seus caprichos.”

 

O pai respondeu que ela deveria ter cuidado com a forma como estava se dirigindo a ele, ressaltando que era um homem negro e que se sentia desconfortável com a maneira como estava sendo tratado. A médica questionou se ele a estava acusando de racismo, ao que ele respondeu que não estava fazendo tal acusação, apenas alertando para a forma como ela se comunicava com ele. O pai voltou a enfatizar que a criança era autista e que suas dificuldades deveriam ser consideradas durante o atendimento.

 

Após esse episódio, a médica teria ficado ainda mais exaltada, passando a utilizar o telefone celular enquanto caminhava pela unidade. Segundo a percepção da família, sua postura continuava exercendo pressão sobre o pai da criança e sobre a equipe de enfermagem, enquanto outros pacientes aguardavam atendimento.

 

Diante da situação, o pai entrou em contato com a mãe da criança, solicitando sua presença na maternidade por considerar estranha toda a movimentação da médica. Ao chegar à unidade, a mãe encontrou a equipe de enfermagem tranquila e os demais pacientes aguardando atendimento normalmente. Buscando compreender os fatos, ouviu do pai o relato completo do ocorrido.

 

Em seguida, questionou a equipe de enfermagem sobre a possibilidade de liberação da criança. Segundo os profissionais presentes, o período de observação já havia transcorrido e, caso a família desejasse, poderia deixar a unidade.

 

Nesse momento, a médica surgiu ao final do corredor, visivelmente alterada, com o celular em mãos, e gritou que a criança não poderia ir embora porque ainda não havia sido liberada por ela.

 

A essa altura, a criança já apresentava melhora significativa do quadro que motivou a busca por atendimento. Não apresentava mais vômitos, nem sinais de fraqueza ou mal-estar, em razão das medicações administradas. Contudo, já estava sem acesso à sua medicação de uso contínuo e havia ultrapassado seu horário habitual de descanso, circunstâncias que, para uma criança autista, podem representar importante fator de desregulação emocional.

 

Diante desse cenário, a família optou por retornar para casa com a criança. Ao deixar o estacionamento da maternidade, observou a chegada de uma viatura policial à unidade. Mesmo assim, seguiu viagem para casa.

 

A percepção da família foi a de que a médica estava utilizando sua posição de autoridade para constrangê-los, desconsiderando as necessidades específicas da criança autista, submetendo o pai e a própria criança a uma situação de intenso desgaste emocional e, ao final, acionando a polícia em decorrência do conflito ocorrido durante o atendimento.

 

Considerando todos os fatos relatados, a família entende que a conduta adotada pela médica durante o atendimento foi inadequada e incompatível com os princípios de humanização que devem nortear a assistência em saúde, especialmente quando se trata do atendimento a crianças e, de forma ainda mais sensível, a crianças com necessidades específicas.

 

Além do quadro clínico que motivou a busca por atendimento médico, a situação vivenciada no ambiente hospitalar gerou elevado nível de estresse, ansiedade e sofrimento emocional tanto para a criança quanto para seus familiares. Em vez de promover acolhimento, escuta e segurança, a postura adotada ao longo do atendimento contribuiu para aumentar a tensão e o desgaste emocional de todos os envolvidos.

 

É importante destacar que o exercício da medicina não deve se limitar à aplicação rígida de protocolos, desconsiderando as particularidades de cada paciente. Protocolos existem para orientar a prática profissional, mas não substituem a análise individualizada de cada caso nem a necessidade de diálogo entre profissionais de saúde e familiares. Especialmente na pediatria, o cuidado deve ser pautado pela comunicação clara, pela escuta ativa e pela construção conjunta das decisões terapêuticas, sempre buscando o melhor interesse da criança.

 

Famílias de crianças atípicas convivem diariamente com suas necessidades, comportamentos, limitações e formas de reação a diferentes situações. Por essa razão, as informações fornecidas pelos responsáveis devem ser consideradas com atenção e respeito. Ainda que a equipe médica entenda ser necessário determinado procedimento, cabe ao profissional explicar de forma humanizada os motivos de sua indicação, esclarecer dúvidas, apresentar riscos e benefícios e buscar estratégias que minimizem o sofrimento da criança e de sua família.

 

O papel do médico não é impor sua vontade ou seu ponto de vista, mas utilizar seu conhecimento técnico aliado à sensibilidade humana para oferecer o melhor cuidado possível. Isso inclui considerar não apenas os aspectos físicos da doença, mas também os impactos emocionais e psicológicos que determinados procedimentos podem causar, especialmente em pacientes com transtornos do neurodesenvolvimento.

 

Diante do ocorrido, a família espera que os fatos sejam devidamente apurados e que a situação sirva para promover reflexões sobre a importância do atendimento humanizado, do respeito às diferenças, da valorização das informações prestadas pelas famílias e da necessidade de uma relação baseada no diálogo, na empatia e no cuidado integral à criança.

 

Redação

Foto: Montagem/Portal Raízes

 

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