Setembro Amarelo: viagem, aniversário de casamento e uma despedida inesperada; viúvo de coiteense relembra últimos dias ao lado da esposa

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Falar sobre o Setembro Amarelo é tão necessário que, para romper o silêncio em torno do tema, também é preciso relembrar fatos que, até então, são considerados tabu.

Mas essa lembrança precisa ser feita de uma forma menos sensacionalista e mais humana, buscando compreender o sofrimento, os sinais que podem passar despercebidos e a importância de procurar ajuda.

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Em Conceição do Coité, foram registrados diversos casos de suicídio neste ano. Um deles foi o de Taiale Mota dos Santos, de 31 anos.

Jovem, mãe de um menino com autismo nível 3 de suporte e não verbal, Taiale era casada com Luís Henrique, representante comercial. O casal havia se casado em 27 de fevereiro de 2020 e, na semana anterior à tragédia (2026) que mudaria para sempre a vida da família, os dois haviam viajado para Salvador para comemorar o aniversário de casamento em março deste ano.

 

Segundo Luís Henrique, nada fazia imaginar o que aconteceria poucos dias depois.

“Na verdade eu não percebi mudança nenhuma, viu? Para falar a verdade, a gente estava bem. O nosso relacionamento tinha até melhorado”, relatou o viúvo, em entrevista à jornalista Rafaela Rodrigues.

 

De acordo com ele, a viagem em família havia sido marcada por momentos de lazer. Luís, Taiale e o filho ficaram hospedados em um hotel em Salvador, foram à praia, piscina, shopping, restaurante e outros locais.

 

“A viagem foi muito boa, a gente se divertiu. Fomos para a praia, ficamos na piscina do hotel, fomos para o shopping à noite, fomos a um barzinho, fomos a um restaurante à noite também”, contou.

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O que parecia ser uma família vivendo momentos de tranquilidade, porém, escondia um problema que, segundo o viúvo, vinha se agravando silenciosamente.

 

“Ela não transparecia nada”

 

Luís conta que retornou de Salvador com a família na segunda-feira. Na terça, precisou viajar a trabalho. Na quinta-feira, Taiale morreu.

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Segundo Luís, Taiale deixou uma carta na qual relatava o envolvimento com o chamado “Jogo do Tigrinho”. Conforme o relato do viúvo, ela teria começado a jogar em 2021 e, naquela época, chegou a perder o dinheiro destinado ao aluguel de sua loja.

 

Na carta, ainda segundo Luís, Taiale teria relatado que voltou a jogar em 2025 após ser incentivada por uma “amiga”. A partir daí, o problema teria se agravado.

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O viúvo disse ainda que não sabia que ela utilizava recursos destinados à compra de mercadorias para fazer apostas.

 

“Ela começou a pegar meu cartão, que eu deixava à disposição dela para comprar mercadoria, e, ao invés de comprar mercadoria mesmo, ela jogava. Eu não sabia!”, contou.

 

 

Um sofrimento que nem sempre é percebido

 

Para Luís, uma das maiores dificuldades relacionadas ao vício em jogos é justamente perceber que existe um problema.

 

“É como eu falei com algumas pessoas: o vício em jogo é pior do que o vício com droga. Porque o vício com droga você percebe que a pessoa está usando droga, o corpo mostra.

E o vício com jogo não mostra, você não consegue perceber. Então é silencioso demais”, afirmou.

 

 

Ele defende que familiares estejam atentos a mudanças de comportamento, principalmente quando há sinais de endividamento, isolamento ou sofrimento emocional.

 

“Tem que estar muito observando. É ficar atento mais à pessoa”, disse.

 

 

A angústia antes da tragédia

 

Luís revelou que, na quarta-feira, um dia antes da morte de Taiale, ela chegou a ligar para perguntar como ele estava e contou que não se sentia bem.

 

“Recentemente, na semana em que ela cometeu suicídio, na quarta-feira exatamente, ela me ligou e perguntou como eu estava. Aí falou que não estava se sentindo muito bem, estava ruim, com angústia. Eu falei: ‘Tu não quer ir na psiquiatra?’”, relatou.

 

Taiale já havia enfrentado depressão pós-parto após o nascimento do filho, em 2021. Segundo Luís, na época ela recebeu acompanhamento psiquiátrico, fez tratamento e apresentou melhora.

 

Ele conta que chegou a pagar consultas e medicamentos durante aquele período.

 

“Ela me dava um beijo e voltava para dentro de casa”

 

As lembranças dos últimos dias ao lado da esposa tornam a perda ainda mais difícil para o viúvo.

Luís recorda uma cena da segunda-feira, quando estava em casa organizando o material de trabalho.

“Fui para o fundo do quintal, que estava muito calor, e comecei a arrumar. E ela ia lá de vez em quando. ‘Mô, quer um suco?’ Aí levava. ‘Quer uma água?’ Levava. Me dava um beijo e voltava para dentro de casa. E eu lá arrumando, arrumando até de noite. Na terça eu viajei”, contou.

 

Para ele, são justamente esses momentos simples do cotidiano que mais fazem falta.

 

“O que eu mais sinto falta é realmente o convívio mesmo, a relação que nós tínhamos. Ela era bem carinhosa. A grande maioria das vezes ela me ligava quando eu estava em Serrinha. Perguntava onde eu estava, onde estava chegando, e ficava na frente da casa me esperando”, lembrou.

 

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Com a voz marcada pela saudade, Luís define Taiale como uma companheira agradável e de boa conversa.

 

“Era uma pessoa muito agradável, de um papo bom. Ela era uma companheira muito boa para mim. Eu estou vencendo devagarzinho, a resiliência está sendo boa para mim”, afirmou.

 

 

O filho e a reconstrução da família

 

Além da dor pela perda da esposa, Luís precisou lidar com a mudança na rotina do filho, que, segundo ele, tinha uma relação muito próxima com a mãe.

O menino é autista, nível 3 de suporte, não verbal e apresenta seletividade alimentar severa. Segundo o pai, ele também precisou enfrentar a ausência repentina da mãe.

“Ele deve ter sofrido bastante, porque sentiu a falta da mãe. Vivia 24 horas com a mãe”, contou.

 

O menino segue acompanhado por profissionais e realiza terapias, incluindo terapia ocupacional e fonoaudiologia.

 

Luís também fala com carinho da filha Maria, de 15 anos, fruto de seu primeiro relacionamento, que se tornou uma das fontes de força para continuar.

 

“Tudo isso motiva a pessoa para continuar vivendo, trabalhar, para conseguir recuperar o que perdeu. Enfim, é a vida. Deus está me dando força até aqui”, afirmou.

 

“Procurar um profissional”

 

Ao falar sobre o que diria a alguém que esteja enfrentando sofrimento emocional ou pensamentos suicidas, Luís destaca a importância de não enfrentar a situação sozinho.

 

“Em primeiro lugar, se apegar a Deus, ter uma boa fé, uma boa espiritualidade e, principalmente, procurar um profissional”, aconselhou.

Ele reforça que familiares e amigos também podem desempenhar um papel importante.

“Uma pessoa da família, um parente, um amigo, um familiar, um marido, uma esposa, tentar ajudar essa pessoa, levando até um psiquiatra, um psicólogo”, afirmou.

No caso de Taiale, segundo ele, houve tentativa de acompanhamento profissional em momentos anteriores. “Eu ainda fiz isso, inclusive. Eu paguei psicóloga, paguei consulta com psiquiatra, mas infelizmente eu sou uma pessoa que viajo muito. Sou representante comercial, então viajo de segunda a sexta e só volto no sábado, ou às vezes na sexta à noite”, explicou.

 

Um alerta para além do Setembro Amarelo

A história de Taiale não pode ser reduzida ao momento de sua morte. Para a família, ficam as lembranças, a saudade e a necessidade de reconstruir a vida.

O relato também chama atenção para um problema que pode permanecer invisível: a dependência em jogos de apostas e os impactos financeiros e emocionais que ela pode provocar.

“Com certeza está destruindo muita gente. Não é só ela, ela só foi uma na multidão”, declarou Luís ao ser questionado sobre o impacto dos jogos de apostas..

Se você ou alguém próximo estiver enfrentando uma crise emocional ou pensando em tirar a própria vida, procure ajuda imediatamente. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em uma emergência, também é possível procurar uma unidade de saúde ou acionar  o SAMU pelo 192.

 

redação

Foto: Arquivo

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